Donde o termo "hagiorita" como se referindo àquele da "Santa Montanha" — Monte Athos.
LELOUP, Jean-Yves. Sagesse du Mont Athos. Québec: Philippe Rey Editions, 2018
Aqui no Monte Athos, o que faço?
Nada mais que "deixar a Vida que sou ser", permanecer neste movimento da Vida que se dá, estar presente a isso, com todo o corpo, com toda a inteligência, com toda a afetividade, com gratidão.
Não nascemos para fazer algo, mas para "ser" alguém.
Aqui, como em qualquer lugar, este é um bom local para estar vivo e para "deixar a Vida ser" na forma precária e provisória que nos é dada (eu-tu-a sociedade-o cosmos) por ainda um pouco de tempo.
Mas, é preciso saber, não nascemos apenas para morrer, mas para perder nossas ideias sobre a vida e sobre a morte, para perder nossas pretensões e nossos limites.
Dirás: "E Deus em tudo isso?".
Lembro que Deus não existe; se existisse, como tudo que existe, ele estaria destinado a desaparecer. Qual o interesse de "ter" um deus que existe, ou de ter a "verdade"? Como tudo o que se tem, um dia não se terá mais.
O importante não é o "Deus que se tem", mas o "Deus que se é". O importante não é a verdade, a vida que se tem, mas a Verdade, a Vida que se é.
Lembro também que na Bíblia não se trata em lugar algum de Deus, mas sim de YHWH, Adonai, Shaddai, Eyeh asher Eyeh, Elohim, Shabbaot... cada um desses nomes sendo uma tentativa de colocar uma palavra em uma experiência. A experiência do Incognoscível, do Silêncio inefável no coração de tudo que vive e respira (YHWH); a experiência de um Sentido que nos orienta, nos estrutura e nos conduz (Adonai); a experiência do mundo como manifestação de uma Força e de uma Energia incomensurável (Elohim); a experiência de uma Presença que nos envolve, nos sustenta, quase de uma "Mãe" que nos carrega (Shaddai); a experiência de uma Ordem, de uma Harmonia que estruturam os diferentes planos do ser ou os diferentes "níveis de realidade" para falar como os físicos de hoje (Shabbaot).
Há muitos outros nomes de Deus, ou seja, muitas outras formas de entrar em relação com a Realidade Una — diversa e inefável.
A experiência que se contava há instantes não é próxima da de Moisés, quando ele acolhe Deus como sendo Eyeh asher Eyeh: "Eu sou o que Eu sou"?
Não é a experiência que todo ser humano pode fazer da "Vida que é"; não apenas no momento em que perde a "vida que tem", mas no próprio cotidiano desta vida mortal?
Nos Evangelhos, fala-se de Deus como sendo a bela e grande Zoe: a Vida... "Ele é a Vida — por ele tudo existe, sem ele: nada. A Vida é a luz (phos) dos homens, ela ilumina todo ser humano que vem a este mundo (panta anthropon)".
É a experiência de Yohanan, o discípulo, e a experiência de Yeshoua, o mestre: "Eu sou a vida... Eu sou a luz do mundo... Antes que Abraão fosse, 'Eu sou'".
Não há nada contra a palavra "Deus" se se lembra o que ela quer dizer e a qual magnífica experiência nos remete: Deus, ou seja, dies, o dia.
Ver Deus é "ver o Dia", é permanecer na luz; a luz sendo o que não se vê, mas o que nos permite ver todas as coisas. Da mesma forma, a Consciência não é "algo" do qual se poderia "ter" consciência, mas o que nos torna conscientes.
Pode-se morrer sem nunca ter visto o Dia! Que pena: se veem as coisas, não se vê a claridade na qual elas nos aparecem, se vê o visível, não se vê o Invisível... se apreende todos os tipos de objetos e se ignora o Espaço no qual se pode apreendê-los.
"Ver o Dia", como diz o Livro do Gênesis, é ver o "Nada" no qual todas as coisas aparecem. Que esplendor! Ver a luz não apenas ao redor ou entre as coisas, mas no coração das coisas, ver a luz na matéria! Isso, esta é a grande experiência do Monte Athos, esta é a experiência do Tabor ou da Transfiguração.
Não é também a conclusão, sem dúvida mais teórica que "experimental", dos físicos que consideram hoje a matéria como uma das "velocidades mais lentas da luz..."? Frequentaríamos apenas as "mais baixas frequências" do Real. É o aparelho de percepção (o corpo, o cérebro) que se deve adaptar aos diferentes níveis de realidade que se oferecem.
Descobre-se a cada dia mais que o ateísmo é uma "doença dos olhos" (literalmente: a-theos – sem visão ou visão sem luz), é ter o olhar parado pelo que se vê, é não ver o Invisível.
Aliás, a palavra theos, em grego, que se usa aqui no lugar da palavra Deus, não quer dizer "visão"? Como a palavra theoria, na origem, em Platão, quer dizer "contemplação"?
O que se chama Deus — Theos — na ortodoxia, é a experiência de uma visão não parada, uma visão infinita que recoloca cada realidade finita em seu lugar e nos impede de fazer dela um ídolo. Na luz desta visão, se vê a Luz; em cada ato de pura consciência, se experimenta a Consciência; em cada instante plenamente vivido, se experimenta a Vida, em cada presente, se sente a Presença.